Região e Oriente Médio

O conceito de região está longe de ser um consenso dentro da geografia, contestado por muitos autores no que tange a sua base de sustentação e no que diz respeito a sua própria relevância para a ciência. Mas ao analisarmos o Oriente Médio, fica impossível não admitir a importância da região. Longe de termos a pretensão de explicar toda a complexa realidade do Oriente Médio através de apenas um conceito, mas ao mesmo tempo é um erro aprofundar-se em qualquer analise sem questionar a própria regionalização vigente, que entendemos como produtora de realidade que permanece há muito tempo inalterada. Entendemos que uma discussão sobre o conceito de região seja o princípio para se compreender as relações globalizantes e imperialistas que avançam sobre o Oriente Médio.

O próprio recorte que toma o Oriente Médio enquanto região está longe de ser um consenso e aparece nos livros de maneira diversa, hora incluindo um país e excluindo outro. Isso se reflete numa regionalização pautada por características exclusivamente físicas de localização, sendo essa variação de país uma irrelevância para a regionalização. A região que abrange o Oriente Médio possui povos com etnias, religiões, regimes e economias distintas entre si, mas que ao aparecerem no mapa e nos discursos enquanto Oriente Médio, tem a sua realidade homogeneizada e absurdamente simplificada. É essa regionalização que predomina até hoje para compreender o Oriente Médio, aceitá-la e partir dela numa análise significa concordar com o discurso que a sustenta, de que absolutamente nada no Oriente Médio aconteceu para que se justifique outra regionalização. È preciso antes de tudo desconstruir essa visão orientalista que aponta para um Oriente Médio imóvel, paralisado, atrasado e sem história, ou melhor, que o oriente é só mais um palco por onde o ocidente conduz a história. É claro que essa é uma visão abrangente de leitura do oriente pelo ocidente e se expande para além de um conceito, estando presente nas pinturas, filmes, livros e todas as variadas formas de se retratar o Oriente Médio com um único povo (os subalternos) e uma única paisagem (desértica). Mas é preciso admitir que evidentemente essa visão também está impregnada na ciência, e uma regionalização que permanece inalterada por tanto tempo, mostra isso muito bem.

Na verdade em trabalhos anteriores já mostramos que o Oriente Médio não está imóvel e indiferente aos fenômenos da globalização e da economia universalizada. As imagens que mostram o Oriente Médio moderno são contrastantes demais com os discursos que o indicam como local do atraso. Bahrein, Qatar, Abu Dhabi e Dubai são exemplos dessas cidades pós-modernas, de urbanização “futurista”, lugar do luxo, riqueza e prosperidade. Mas a importância de retomar essa discussão é para salientar um movimento que está em curso, de inserção na dinâmica do capitalismo global de maneira contundente. E contrariando a tentativa da velha visão que homogeniza o Oriente Médio, fazem isso justamente ressaltando o exótico e o diferente. Frisando ainda mais a particularidade da sua cultura, para criar uma identidade e um entretenimento diferenciado. Além de obviamente representar um movimento que indique não só a mobilidade, mas que confronta o discurso do atraso, ainda se utiliza do elemento cultural para fazer questão de ressaltar as diferenças na criação de algo único. Mas outro ponto importante é a desconstrução da tendência homogeneizante da globalização, na ênfase das diferenças. Antes de a região ser o local da aproximação é o local da distinção.

Assim como a complexidade das relações exigem, a região não pode se dar ao luxo de ser o engessamento dessas relações. Uma vez que tentamos apontar para uma regionalização que mostre um Oriente Médio cada vez mais integrado com o sistema internacional, sabemos que esse padrão de organização e urbanização que mostram uma região fora da lógica do conflito, não se dá de forma contínua e coesa. Dependem de fatores como estabilidade interna (garantir a segurança do capital) e elemento que subsidie esse projeto (geralmente o petróleo), por exemplo. Mas mesmo que descontinuados, se caracterizam região pela aproximação em alguns aspectos e pelas relações que detém, sendo infinitamente mais importantes que a continuidade dos territórios. Admitir esse tipo de variabilidade torna a regionalização algo extremamente mais complexo, mas também a única maneira de se aproximar adequamente do real. Ainda que tenhamos que concordar que a regionalização enquanto um instrumento de produção da realidade, será alterada drasticamente se outros fatores forem colocados como relevantes, pois estaremos produzindo outra realidade. O importante é ter como fundamental que as novas relações que se dão em diversas escalas, não permitem que o fundamental da região seja a sua coesão espacial.

À medida que o espaço ao mesmo tempo se globaliza e se fragmenta, de certa forma reduzindo (ou, numa linguagem cartográfica correta, ampliando) as escalas de diferenciação e “in-equalização”, fica muito mais difícil encontrar regiões geograficamente mais estáveis e dotadas de continuidade e/ou contigüidade nitidamente estabelecidas. Nesse sentido é que podemos falar tanto de redes regionais […] quanto em regiões com buracos […].

Sendo assim, as “redes regionais” são os pontos de aproximação, que ligam efetivamente os locais a uma rede, constituindo assim uma região. O determinante não é a sua continuidade física, mas sim a sua integração através de relações (sejam elas econômicas, culturais ou políticas). Mostrando a faceta altamente seletiva da formação das regiões, as “regiões com buracos” estão à margem da integração, podem até estarem interpostas fisicamente entre as redes que se formam, mas são puladas, ignoradas, justamente por não compartilharem das características que ligam e formam a região.

O CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) que tem como membros: a Arábia Saudita, Oman, Kwait, Bahrein, Os Emirados Árabes Unidos e o Qatar, cujo objetivo é se diferenciar dos países do entorno, na formação de um bloco de integração que possa afastar a instabilidade política e a crise econômica que assola a região, tornando difícil a reprodução do capital. Iraque e Irã (que também rodeiam o Golfo Pérsico) foram sumariamente ignorados pelo CCG, justamente por não atenderem os critérios de conformação do bloco. E ainda que o nome sugira uma regionalização por características físicas, vemos que isso não é o preponderante, uma vez que as relações conturbadas de Irã e Iraque no âmbito regional e internacional os afastam da lógica de integração ao sistema internacional do bloco. O CCG representa um claro avanço da organização política dos países no Oriente Médio, buscando sempre uma inserção mais satisfatória para a dinâmica global, uma vez que negocia enquanto bloco econômico, mas estabelece parcerias de cooperação em áreas como cultura, educação e saúde. Ainda tentam exercer politicamente um ordenamento na região, pensando na expansão da própria área de influência, tentando sempre tirar posições unitárias quantos aos problemas da região. Mas não podemos desprezar a outra vertente das relações que compõe o CCG: o imperialismo. Uma vez que as monarquias que compõem o bloco não são um problema para a reprodução da lógica capitalista, e estranhamente nem a estabilidade interna e o crescimento econômico sendo conseguidos através de forte repressão a organização dos trabalhadores, são um problema do ponto de vista dos direitos humanos, o CCG assume um caráter fundamental que é o de porta de entrada e de facilitador da expansão do imperialismo na região.

Precisamos saber tratar com cuidado a duplicidade dessas relações, mostrando o dinamismo que implica sobre a região. Da mesma forma que existe um avanço do imperialismo sobre o Oriente Médio, esse avanço se deve em parte a própria reorganização da região, ou melhor, a própria diferenciação da região, conseqüentemente desconstruindo visões que sempre permearam o imaginário ao se falar de Oriente Médio. Mas ainda que essa inserção gere uma concentração de renda e um massacre a classe trabalhadora (os mesmos problemas do ocidente), não podemos desconsiderar o esforço para a construção de outra região que se distinguisse do “caos” permanente, sendo considerada atrativa do ponto de vista da dinâmica do capitalismo global. Como já dito anteriormente, considerar essas relações uma via de mão única, ou seja, a ação do imperialismo sobre o Oriente Médio, seria simplificar e não compreender o quanto a região mudou drasticamente.

Marcio Ornelas

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