A cosntrução dos espaços políticos

Nessas últimas semanas, pudemos acompanhar alguns casos que ganharam grande destaque na televisão e também nas redes sociais. Refiro-me especificamente aos casos de Pinheirinho e da greve da polícia militar da Bahia. No primeiro, a luta pelo direito à moradia, a vida com dignidade, a condição mínima de existência. No segundo, a luta mais do que justa por um salário decente e por melhores condições de trabalho. Estes dois casos distintos possuem muito em comum. Ambos ganharam contornos dramáticos e tratam de uma resistência popular a uma ordem que insiste em passar por cima sempre que for necessário. De parecido também possuem a cobertura criminosa das redes de televisão, que tratavam os envolvidos como vagabundos, sem-tetos, vândalos, marginais e todo o tipo de barbaridade que se pode imaginar. Excetuando os movimentos sociais organizados, algusn poucos partidos e uma parcela (não toda) da comunidade das redes sociais, a falta de manifestações de apoio das massas a esses dois casos, mesmo com tantas atrocidades cometidas pelas autoridades e elementos que apontavam para uma identificação com a causa, não só chama a atenção, como denuncia um dos maiores entraves para a transformação efetiva da nossa sociedade: a ausência de espaços políticos e de diálogo.

Esse é um problema que precisa ser superado aos poucos, é um trabalho de formiguinha. Mas a ausência de espaços onde se possa discutir a própria sociedade, falando sobre problemas, soluções e suas próprias bases de sustentação, não pode ser encarada como algo natural. A sociedade atual vive e sobrevive de uma exaltação extrema a dimensão econômica da vida humana. Toda aquela história que já cansamos de ouvir do trabalho como elemento que dignifica o homem, ou o homem como recurso, um gerador de riquezas. No trabalho reside a única forma de sobrevivência nessa sociedade, portanto, com a manutenção dessa sobrevivência cada vez mais difícil de ser realizada, sob condições cada vez mais adversas, não é de se espantar que todas as instituições produtoras e reprodutoras de imaginários, foquem todo o seu esforço na lapidação de um homem estritamente econômico, onde os seus sonhos e objetivos sejam de sucesso e de glória econômica. Sendo assim, as outras dimensões da existência humana em sociedade, ficam secundarizadas (dentre elas a política) diante da urgência da conquista da sobrevivência. A graça toda é que para o funcionamento da própria sociedade, a dimensão política é importantíssima, mas para a população ela tem que ser banalizada.

Não é interessante a construção de espaços que dêem a população uma visão mais ampla sobre o termo política (que sistematicamente é confundido com eleição, definitivamente não são sinônimos), seria um desvio tolo, desnecessário para o caminho do sucesso que desde cedo somos estimulados a seguir. Sintetizando: Não cabe a construção de espaços que questionem ou alimentem a desconfiança sobre o funcionamento da própria sociedade em questão, portanto, a ausência da dimensão política de nossas vidas não é natural. Só que paradoxalmente precisamos dessa dimensão para mudarmos as coisas, insistir na construção desses espaços é fundamental e ao mesmo tempo uma transgressão da própria lógica de funcionamento da sociedade. Hoje a política resume-se em um dia a cada dois anos, nada mais do que isso. Um fardo que esses cretinos nos obrigam a carregar. Nós odiamos a política, pois a atrelam as eleições, a corrupção, a partidos políticos questionáveis e a uma burocracia infindável. E por odiar tanto, esquecemos da dimensão essencial e singela da política, que é o debate constante e o aprendizado.

Só que esse tempo que precisamos para pensar e refletir, a sociedade não nos oferece de bom grado. A descrição a seguir é a da rotina de milhões de brasileiros, a imersão na rotina quase sempre não dá brechas. O cara chega cansado em casa, trabalhou por 8 horas, às vezes 9 ou 10 para conseguir um trocado a mais. Ganha pouco mais de 600 reais, é muito difícil manter o sustento da família, como pode ainda ter que se preocupar com política? E todo esse pensamento é justíssimo. Só que ele não quer passar por desenformado, aí liga a TV, coloca no jornal e assiste um resumo das principais notícias do Brasil. Com cortes rápidos ele observa cenas de confusão, protestos, revoltas. O âncora do jornal (sempre sério e de índole inquestionável) repete as palavras vândalos, vagabundos e outras mais como se fosse um mantra. Se passou no jornal é um fato, ele é obrigado a concordar com o apresentador. Esse é o quadro e há muito tempo é assim, a mídia segue sendo o principal (e às vezes o único) interlocutor para a população, e mudanças não estão programadas. Esse é o grande desafio. Fazem falta espaços onde se possa contextualizar o que acontece, onde se possa fazer um debate sério sobre os problemas da população, onde as conclusões não sejam mandadas de cima para baixo, onde possam ser construídas em conjunto. Não temos isso amplamente e não estamos próximos de ter. Mas se já possuímos a consciência de que um trabalho pedagógico de construção de um novo olhar sobre esse mundo é vital, então não estamos perdendo de zero.

Marcio Ornelas

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4 comentários sobre “A cosntrução dos espaços políticos

  1. Marcio, acho realmente difícil que um jornal sério faça tal julgamento de valor em relação a revoltosos, a não ser que estejam, de fato, cometendo atos de vandalismo que nada tenham a ver com protesto político, e sim com destempero pessoal e desculpa para dar vazão ao ódio. Não há correção nenhuma no revoltoso que parta para a destruição como forma de “expressão”, porque não é expressão, é crime. Não sei por que esse tipo de coisa se “sacralizou” no politicamente correto; talvez porque nos pareça mais confortável defender o erro com a mesma justificativa de que, um dia, nós precisaremos para cometer os nossos próprios. Considerar aceitável um ato de “vandalismo” é abrir caminho para cometê-lo impunemente. Entre o jornal que de fato venha a condenar esses atos, mesmo com termos mais pesados, e os cometedores da destruição, sem dúvida são estes úlimos os mais errados. É política perigosa sugerir qualquer interação entre liberdade e violência. Beijos e sucesso no blog, querido!

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