Da crise econômica à crise política

 A crise econômica que afeta toda a Europa, mas que hoje tem como foco principal a Grécia, realmente impressiona. A dimensão é cada vez maior ao que imaginávamos inicialmente e parece não conhecer barreiras, se alastrando por todo o mundo, seja em grandes ondas ou em marolinhas.  Não quero aqui parecer muito entusiasta da atual conjuntura e acabar me precipitando, vou adotar uma análise mais cautelosa, pois de fato acho muito cedo para dizer até onde essas revoltas e esses descontentamentos podem chegar, se estamos diante de um acontecimento que pode mudar os rumos da história ou mesmo se é o fim de um modo de produção. Mas o que não pode haver são dúvidas acerca da importância desse acontecimento, independentemente da direção que vá tomar, essa crise é um marco.

Alguns mitos que rodeavam a existência do capitalismo se afundaram junto com a economia de vários países Europeus. Primeiro: o modelo de blocos econômicos, considerado até bem pouco tempo atrás o ápice da organização capitalista, não conseguiu evitar a crise e mais, pode ser o grande entrave para a recuperação dos países afetados. Segundo: o capitalismo não é capaz de evitar as grandes crises, mesmo após séculos de desenvolvimento. Passou toda a década de 90 e de 2000 administrando crises menores, muitos analistas consideravam o sistema vacinado. Terceiro: é o que eu mais gosto de lembrar, a impossibilidade de mobilização das massas na era “pós-moderna”. O grande protagonista dessa crise não é tal governo ou chefe de Estado, e sim o povo, que nas ruas transformou uma crise econômica quase intangível, numa crise social e conseqüentemente evidenciaram a gravidade da situação. Aliás, essa crise não é um marco por ser a maior do século, mas porque houve resposta, a população ampliou a dimensão do fato elevando a conjuntura a outro patamar de importância. A crise econômica não faz a história, o povo faz.

O ato de se resignar a uma medida extrema que visa corrigir o problema, não expõe a fragilidade política do momento. É por isso que resposta dada nas ruas fez dessa crise econômica uma notícia recorrente na mídia, ser generalizada e motivo de preocupação constante. Numa economia globalizada e cada vez mais integrada, é normal que num período de turbulência, seus reflexos ecoem por todos os cantos. Ou seja, é esperada alguma mazela financeira, mas as políticas e sociais são verdadeiramente temidas, ainda mais quando viram exemplos. E essa crise é um poço de exemplos perigosos. Na situação idealizada pela burguesia grega, eles apertariam ao máximo a população, ela compreenderia e com o tempo as coisas se ajeitariam. A população grega fez uma opção de não serem os únicos que pagam a conta.

Vou destacar mais um elemento diferencial dessa crise. A gravidade econômica do momento certamente é um elemento de preocupação, mas a crise política (que até então não rondava com tanta força as crises econômicas) é o que realmente levou a população grega para as ruas. Um momento financeiro difícil causa tensão, mas pode ser amenizado se ainda se tem confiança no governo, se observa boa vontade e boas medidas para resolver o problema. Mas a solução encontrada para tirar a Grécia do buraco, foi fazer duros cortes nos direitos dos trabalhadores, o que tornou a já complicada situação, insustentável. Mas não se enganem, o governo grego não escolheu o lado que ia ficar agora, só que a relação entre política e economia no sistema capitalista é de simbiose, em períodos comuns é difícil de separar quem é o que, ou quem serve a quem. Permanece uma falsa sensação de um país para todos. Mas a grave crise, exigia uma resposta imediata, o que forçou a saída dos governantes de cima do muro, desfazendo a simbiose. Quando a população realmente percebeu que essa política está e sempre esteve a serviço do grande capital e da burguesia, o clima de tensão se eleva ao desespero. A governabilidade fica comprometida e o povo vai se manifestar, pois tem a noção de que têm representantes que não podem ajudar por já estarem comprometidos. Por isso é que independente dos rumos, esse é o fato que nós precisamos exaltar e com ele aprender. Não é fácil, mas gregos poderiam estar em casa e nós não estaríamos debatendo isso agora!

Marcio Ornelas

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