Paradise Lost 3: Purgatory

Paradise Lost 3

“Paradise Lost 3: Purgatory” é o tipo de filme que facilmente poderia ter o roteiro advindo de Hollywood. O documentário conta a incrível história de três jovens que ficaram por quase vinte anos presos por um crime que não cometeram. Purgatory é o terceiro da série de documentários produzidos pela HBO e também o melhor deles. Nele podemos acompanhar uma retrospectiva dos acontecimentos e também o desfecho dessa saga que durou duas décadas.

A primeira coisa importante a ser dita, é que você não precisa assistir os outros dois documentários para compreender o que se passa nesse aqui. Os diretores fizeram um ótimo trabalho de montagem, apresentando um resumo competente dos principais acontecimentos, utilizando com precisão cirúrgica materiais dos filmes anteriores.

Três crianças são brutalmente assassinadas na pacata cidade de West Memphis, EUA. O crime choca a população e atrai a atenção de toda a mídia do país. A polícia começa a ser pressionada por todos os lados para apresentar os responsáveis pelo crime. Três adolescentes com o perfil muito parecido são presos: são ouvintes de havy metal, gostam de livros de terror, andam com roupas de cor preta e pintam as unhas.

O filme é extremamente competente ao mostrar como atmosfera local, de uma cidade conservadora e com a população muito religiosa, condenou os jovens antes mesmo de serem julgados. Sem qualquer evidência que os liguem ao crime, os três são execrados com base no preconceito e na intolerância, por serem “diferentes” ao que a realidade local está acostumada. Com a tese da polícia de que a motivação do crime seria um ritual satânico, não é difícil colocar toda a população numa cruzada divina contra os adolescentes. Um dos moradores chega a afirmar que “só poderiam ser eles!”.

Mas nada se compara a cobertura que a mídia faz sobre o caso. O filme é muito hábil ao mostrar a parcialidade e o sensacionalismo dos veículos de comunicação, desprovidos de qualquer responsabilidade, são fundamentais para o processo de demonização dos “3 de West Memphis”. Por fim, o documentário não hesita em retratar a incompetência da polícia e também a corrupção do sistema judiciário americano. Ambas as instituições cedem às pressões exteriores, ultrapassando todos os limites da ética e do profissionalismo, para apresentar uma resposta rápida à sociedade.

Esse é um filme que vale muito a pena, além de manter a qualidade costumeira das produções da HBO, “Paradise Lost 3: Purgatory” é um documentário que suscita muitas reflexões. Ainda tem o mérito extra de ter contribuído de forma decisiva para salvar a vida de três pessoas inocentes.

Marcio Ornelas

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Será o fim do longo inverno gonçalense?

NEILTON  MULIM

É um consenso que São Gonçalo viveu um período muito difícil. Em grande parte, fruto de oito anos de uma gestão absolutamente desastrosa, marcada pelo autoritarismo e por diversas denúncias de corrupção. Nas eleições municipais, o continuísmo (representado por um candidato que nem era da cidade) foi derrotado, assim como os velhos grupos enraizados na política gonçalense (encabeçados pela deputada estadual Graça Mattos) também foram refutados. Esse cenário nada promissor, somado a forte rejeição dessas duas candidaturas, fez com que o azarão Neilton Mulin fosse visto como um bom nome, uma espécie de novidade para os ares da cidade. Acabou ganhando o pleito e até quem não votou nele, não ficou completamente desgostoso com o resultado.

Mas será que realmente podemos esperar por dias melhores para São Gonçalo? É preciso ter muito cuidado ao tecer críticas a um governo que tem só um mês, até para não cairmos na leviandade, mas é necessário fazer alguns apontamentos. O primeiro deles é que a promessa de renovação das práticas caiu por terra muito rapidamente. No primeiro mês já temos caso de nepotismo, assim como o loteamento das secretarias para atender as demandas das alianças feitas. É uma frustração enorme para a população que mantém os seus anseios por mudança, notar a indisfarçável proximidade de Neilton Mulin com Graça, Eduardo e Rafael do Gordo. Nomes que foram devidamente rechaçados pela população (e até pela justiça, diga-se de passagem), outrora pelo próprio prefeito, reaparecem e ganham peso na composição dos cargos. A vontade de ganhar a eleição fez o autointitulado representante do “novo”, dar as mãos ao tão criticado “velho”, contrariando a vontade do povo gonçalense. Desculpas esfarrapadas enfileiram-se para justificar tais alianças. “Tudo em nome da governabilidade” ou “política é assim, quem não faz aliança não governa”. Há quem acredite nelas, mas de revelador, só o vício nas práticas nocivas e a vontade de priorizar as alianças partidárias em prol de um diálogo franco com a população.

A segunda questão é a nomeação de uma série de nomes que compuseram a gestão anterior. O descaso da prefeitura com o meio ambiente foi um ponto exaustivamente abordado por todas as candidaturas durante o processo eleitoral, surpreende a secretária escolhida ser a mesma do governo Panisset. Na secretaria de Esporte e Lazer temos um nome vitalício, Joaquim de Oliveira ocupou o cargo no governo Panisset e até no de Ezequiel. A lista é enorme e evidentemente não termina aí, mas são os dois nomes que mais chamam a atenção. São as ilustrações perfeitas para confirmar que existe um vácuo enorme entre o discurso da renovação e a realidade. Tudo é terrivelmente familiar.

Por fim, Garotinho (padrinho político do prefeito) reduziu a passagem em Campos para 1 real. O método foi subsidiar as passagens, com a prefeitura pagando a diferença. Mas Campos além de ser um município mais rico do que São Gonçalo, não possui o mesmo fluxo que uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Quando questionado durante a campanha, sobre como reduzir as passagens para R$ 1,50, Neilton jamais deu uma resposta conclusiva. A proposta é muito boa, chamou a atenção da população e pode ter lhe garantido a vitória. Mas sempre foi eleitoreira e demagógica. Após o segundo turno o prefeito eleito reformulou e disse que a redução seria feita aos poucos. Desde o início do ano não toca mais no assunto. A verdade é que quando se deparou com a situação financeira caótica do município, percebeu que subsidiar as passagens simplesmente era inviável. Mas isso não é um problema da população, que só quer ver cumprida a tão alardeada promessa de campanha.

Nem com os nomes e nem com as práticas, estamos vendo realmente algo de novo. Parece que essa gestão será mais transparente que a anterior, mas para efeito de comparação com o governo Panisset, definitivamente isso não significa nada.

Marcio Ornelas

São Gonçalo no atacado

supermercado guanabara

Na última semana vimos o rebuliço causado pela inauguração do Guanabara em São Gonçalo. Comemorado pelos governantes locais, alçado a uma das maiores conquistas da atual gestão para a cidade, o supermercado é tratado como o “evento” do ano.

Não se pode, evidentemente, culpar a população pela euforia que lhe toma. Quando um empreendimento pode representar uma sensível economia ao já apertado orçamento do gonçalense, poupando inclusive idas indigestas até Niterói, a histeria começa a fazer certo sentido. Mas a meu ver, a discussão não passa pela reação da população frente ao supermercado, tampouco se é a empresa A, B ou C que irá se instalar por aqui. O que está em jogo é um projeto reducionista para a cidade, limitador das potencialidades do município e que não compreende as demandas da população no âmbito geral. É uma visão que culmina na ausência de políticas públicas coerentes que pensem a cidade como um todo. Em resumo: São Gonçalo não pode ser pensada apenas como uma cidade com “muito espaço” para receber empresas.

Nesse sentido, é lamentável que pelos governantes o Guanabara seja endeusado (como ridiculamente fez o candidato da prefeita). Estamos falando de um supermercado e não mais do que isso. Da mesma forma, a inauguração ser considerada o evento do ano pelas autoridades, expõe de maneira brutal as carências do município e a pobreza de pensamento por quem administra. Impressionantemente isso parece não importar para casta política gonçalense, que apareceu em peso na festa de inauguração do supermercado.

Seguindo a lógica já amplamente adotada no Rio de Janeiro e em Niterói, São Gonçalo vai se transformando numa cidade empreendedora, onde o objetivo é vender os espaços sem mediar as consequências. Um exemplo disso é o Shopping que está sendo construído em Alcântara (bom comercialmente e péssimo em todo o resto). A dinâmica empreendedora enxerga a cidade por um viés unicamente econômico, orientando suas decisões por essa linha. Obviamente, com essa perspectiva, questões como a qualidade de vida da população ou outras necessidades como lazer e cultura, não entram na pauta de discussão na formulação desse modelo de cidade. Portanto, não se trata de uma odisseia contra o Guanabara, mas é um vislumbre de um projeto nocivo para São Gonçalo, que em momento nenhum estará aberto ao diálogo para satisfazer outras demandas da população.

Ou será que está de bom tamanho ter mais um shopping para gastar dinheiro ou mais um local para passar o fim de semana enchendo carrinhos de compra? E todo o resto sendo subvalorizado. Cedo ou tarde teremos que dar essa resposta.

Marcio Ornelas

A juventude é o caminho

egito juventudeIndependente do balanço que pode ser feito sobre as eleições municipais de 2012, se a oposição se fortaleceu ou não, se foi a esquerda ou a direita que mais avançou, se as posições fundamentalistas ecoaram com mais força, uma coisa é certa: a participação da juventude na política cresceu.

Esse fato significa muito e merece o texto. Não só a juventude, mas a população como um todo, andou afastada da vida política. Não me refiro só ao processo eleitoral, mas a política que está no cotidiano. Essa esfera da vida em sociedade estava negligenciada, era tratada com absoluta indiferença. No Brasil estamos falando de mais de uma década de um cenário de absoluta pasmaceira. A aparente estabilidade econômica no país, a própria naturalização das dificuldades da sociedade capitalista e a solidificação dos seus ideais, cooptação de movimentos sociais, enfim, muitos são os motivos e não é objetivo do texto esmiuçá-los.

Mas existe uma retomada efervescente da participação popular. E o protagonismo das grandes transformações que temos visto no mundo está nas mãos da juventude. É claro que a forte crise na qual o capitalismo está submerso favorece o contexto de mobilização. De maneira simplista, as condições “naturais” de dificuldade se acentuam de maneira tão abrupta, aceleradas por opções políticas, que não é mais possível a internalização para a população. O que chama atenção é que eventos como toda a Primavera Árabe, ou as imensas manifestações na Grécia, Espanha, Chile e outros países, tem acelerado a vontade da população de tomar os rumos da história em países onde a crise ainda não recai de maneira aguda.

Falo especificamente do nosso querido país. Um evento corriqueiro e banal como as eleições, se transformou na grande oportunidade de participar da política e de construir um movimento muito mais amplo do que o processo eleitoral. A juventude impulsionou as campanhas mais à esquerda que tivemos por esse país afora, com um destaque óbvio ao belíssimo movimento que virou a candidatura de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro. Um crescimento quantitativo e qualitativo. Num mar de despolitização, os ventos que sopraram de outros continentes chegaram até aqui. A juventude brasileira começa a ser inspirada pela possibilidade de ser protagonista em algo que pode mudar a vida das pessoas, mas não só a utopia, as vitórias concretas no mundo Árabe indicam que não só é possível, como é fundamental assumir a tarefa de ser polo de resistência aos absurdos que vivenciamos todos os dias. E quem melhor que a juventude para iniciar tal trabalho?

O que vimos com essa eleição é um início promissor de uma juventude que tem preocupação com gerações futuras, que quer formar e ser formada, que enxerga a necessidade de refletir os caminhos para uma sociedade mais justa, mas que alinha o pensar e a prática. Percebe que a cobrança, a luta em seu sentido mais geral, não é intercalada a cada dois anos. Que o objetivo é a mudança radical da sociedade, mas que é necessário travar essa batalha em todos os campos. No contexto atual, não haverá transformações que não passem pelas mãos de uma juventude que compreenda a sua importância. Precisamos dela!

Marcio Ornelas

A Primavera Carioca é agora!

A palavra Crise, no latim Crisis, significava “momento de decisão, de mudança súbita”. E como temos ouvido falar nessa palavra nos últimos tempos. A crise econômica, social, política e ambiental que vivemos, cada uma com sua particularidade (não quero correr o risco de ser generalista), são facetas do mesmo fenômeno: a crise sistêmica do nosso modelo civilizatório. Quero dizer que a forma como a sociedade se estrutura e se perpetua, acaba por esgotar as possibilidades da vida humana em todas essas dimensões apontadas. Para mostrar que não estamos falando de sandices teóricas, assuntos etéreos em escala inalcançável, pensem nas últimas grandes manifestações populares que aconteceram no Rio de Janeiro. Bombeiros, profissionais da educação e operários do COMPERJ, por exemplo, além de terem em comum a luta por melhores salários e condições de trabalho, travam uma batalha, sobretudo por dignidade. Isso por que as condições mínimas de reprodução da vida estão ameaçadas, profissionais com funções sociais importantes são desvalorizados, aviltados pelo escárnio com dinheiro público que contrasta com as negativas de reajustes salariais. A sociedade de maneira geral, não garante a tão merecida dignidade da classe trabalhadora. Essa é uma crise que tem um efeito contundente no cotidiano dos trabalhadores, definitivamente é uma crise humana.

Pensem como a existência humana está degrada na sociedade em que vivemos. Achamos natural funcionarmos nos ritmos comerciais e empresarias, vivemos um tempo que não é o nosso. O homem meramente como um recurso, é uma concepção que não é óbvia do ponto de vista de qualquer outra sociedade que não seja a capitalista. Como se não bastasse, sofremos com a distorção completa de valores da vida em sociedade, onde a competição é incentivada em demasia e o individualismo é valorizado. Produtora de fobias, intolerâncias, preconceitos e neuroses. Pensem em como toda essa imposição deteriorou a essência humana, como isso afeta diretamente a forma como nos relacionamos com outras pessoas, sempre com desconfiança, com um pé atrás. É certo que podemos ter perspectivas melhores, mas precisamos ter clareza de que é necessário um questionamento profundo de toda a base que mantém essa sociedade.

Toda essa longa introdução só para dizer que precisamos agarrar as chances que temos de começar uma transformação. Se crise é também o momento de uma mudança súbita, no Rio de Janeiro essa alternativa está posta. Marcelo Freixo é o sopro de esperança – que há muito tempo não víamos – para uma cidade mais justa, que proporcione uma vida melhor para os seus habitantes. Não por acaso os dois primeiros parágrafos desse texto, abordam assuntos como a luta por dignidade e a crise humana que vive nossa sociedade. Marcelo Freixo é um militante histórico dos direitos humanos, esses são temas recorrentes em quase todas as suas falas e também na sua atuação política, sua preocupação em discutir uma cidade que seja boa para morar é constante. Uma voz destoante é fundamental para não cairmos na onda das falsas verdades que propagam o prefeito e a mídia local. O Rio de Janeiro vive um grande momento, onde muito se investe por aqui, mas como pode tantos bilhões circulando e isso não garantir uma cidade mais digna para as pessoas? Esse simples questionamento diz muito sobre a visão que o Marcelo Freixo tem sobre a cidade.

Como principal nome que surgiu no cenário da política carioca nos últimos anos, a disputa para prefeitura será dura (uma máquina pesada do adversário e uma coligação de quase 20 partidos), mas será real. Marcelo Freixo tem força e apelo nos movimentos sociais, na juventude, na classe artística e com intelectuais. E a sua campanha já ganha ares de movimento. Como gosto de falar é um Rio melhor que está em jogo. Tantos já perceberam que é preciso refutar esse poder público que incentiva e promove o distanciamento social e espacial entre as classes, que elege como inimigo número um da sociedade o pobre, negro e morador de favela. Esse estereótipo de vilão é desprovido de todo e qualquer serviço público, só conhece o Estado através da violência. Vivem sempre sobre o jugo de um poder impiedoso, seja ele do tráfico, das milícias ou do próprio Estado. Quantas fortalezas na Barra da Tijuca já não foram vendidas com esse discurso do medo?  É preciso coibir a especulação imobiliária. Não se pode ter receio de uma gestão mais democrática e participativa.

De todas as coisas importantes que o Marcelo fala, talvez a que mais sensibilize, é quando ele diz que quer disputar a vida de cada menino e menina nessa cidade. De fato o projeto para eles é o da reclusão e o da vigilância. Fica claro de que o Rio de Janeiro não pode esperar, essas pessoas não podem esperar. O movimento que começa a crescer movido pela necessidade de transformações urgentes é um grande feito inicial. É certo falar que independente do resultado eleitoral, o Rio de Janeiro não será mais o mesmo. Parece que a Primavera Carioca já começou!

Marcio Ornelas