Será o fim do longo inverno gonçalense?

NEILTON  MULIM

É um consenso que São Gonçalo viveu um período muito difícil. Em grande parte, fruto de oito anos de uma gestão absolutamente desastrosa, marcada pelo autoritarismo e por diversas denúncias de corrupção. Nas eleições municipais, o continuísmo (representado por um candidato que nem era da cidade) foi derrotado, assim como os velhos grupos enraizados na política gonçalense (encabeçados pela deputada estadual Graça Mattos) também foram refutados. Esse cenário nada promissor, somado a forte rejeição dessas duas candidaturas, fez com que o azarão Neilton Mulin fosse visto como um bom nome, uma espécie de novidade para os ares da cidade. Acabou ganhando o pleito e até quem não votou nele, não ficou completamente desgostoso com o resultado.

Mas será que realmente podemos esperar por dias melhores para São Gonçalo? É preciso ter muito cuidado ao tecer críticas a um governo que tem só um mês, até para não cairmos na leviandade, mas é necessário fazer alguns apontamentos. O primeiro deles é que a promessa de renovação das práticas caiu por terra muito rapidamente. No primeiro mês já temos caso de nepotismo, assim como o loteamento das secretarias para atender as demandas das alianças feitas. É uma frustração enorme para a população que mantém os seus anseios por mudança, notar a indisfarçável proximidade de Neilton Mulin com Graça, Eduardo e Rafael do Gordo. Nomes que foram devidamente rechaçados pela população (e até pela justiça, diga-se de passagem), outrora pelo próprio prefeito, reaparecem e ganham peso na composição dos cargos. A vontade de ganhar a eleição fez o autointitulado representante do “novo”, dar as mãos ao tão criticado “velho”, contrariando a vontade do povo gonçalense. Desculpas esfarrapadas enfileiram-se para justificar tais alianças. “Tudo em nome da governabilidade” ou “política é assim, quem não faz aliança não governa”. Há quem acredite nelas, mas de revelador, só o vício nas práticas nocivas e a vontade de priorizar as alianças partidárias em prol de um diálogo franco com a população.

A segunda questão é a nomeação de uma série de nomes que compuseram a gestão anterior. O descaso da prefeitura com o meio ambiente foi um ponto exaustivamente abordado por todas as candidaturas durante o processo eleitoral, surpreende a secretária escolhida ser a mesma do governo Panisset. Na secretaria de Esporte e Lazer temos um nome vitalício, Joaquim de Oliveira ocupou o cargo no governo Panisset e até no de Ezequiel. A lista é enorme e evidentemente não termina aí, mas são os dois nomes que mais chamam a atenção. São as ilustrações perfeitas para confirmar que existe um vácuo enorme entre o discurso da renovação e a realidade. Tudo é terrivelmente familiar.

Por fim, Garotinho (padrinho político do prefeito) reduziu a passagem em Campos para 1 real. O método foi subsidiar as passagens, com a prefeitura pagando a diferença. Mas Campos além de ser um município mais rico do que São Gonçalo, não possui o mesmo fluxo que uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Quando questionado durante a campanha, sobre como reduzir as passagens para R$ 1,50, Neilton jamais deu uma resposta conclusiva. A proposta é muito boa, chamou a atenção da população e pode ter lhe garantido a vitória. Mas sempre foi eleitoreira e demagógica. Após o segundo turno o prefeito eleito reformulou e disse que a redução seria feita aos poucos. Desde o início do ano não toca mais no assunto. A verdade é que quando se deparou com a situação financeira caótica do município, percebeu que subsidiar as passagens simplesmente era inviável. Mas isso não é um problema da população, que só quer ver cumprida a tão alardeada promessa de campanha.

Nem com os nomes e nem com as práticas, estamos vendo realmente algo de novo. Parece que essa gestão será mais transparente que a anterior, mas para efeito de comparação com o governo Panisset, definitivamente isso não significa nada.

Marcio Ornelas

A juventude é o caminho

egito juventudeIndependente do balanço que pode ser feito sobre as eleições municipais de 2012, se a oposição se fortaleceu ou não, se foi a esquerda ou a direita que mais avançou, se as posições fundamentalistas ecoaram com mais força, uma coisa é certa: a participação da juventude na política cresceu.

Esse fato significa muito e merece o texto. Não só a juventude, mas a população como um todo, andou afastada da vida política. Não me refiro só ao processo eleitoral, mas a política que está no cotidiano. Essa esfera da vida em sociedade estava negligenciada, era tratada com absoluta indiferença. No Brasil estamos falando de mais de uma década de um cenário de absoluta pasmaceira. A aparente estabilidade econômica no país, a própria naturalização das dificuldades da sociedade capitalista e a solidificação dos seus ideais, cooptação de movimentos sociais, enfim, muitos são os motivos e não é objetivo do texto esmiuçá-los.

Mas existe uma retomada efervescente da participação popular. E o protagonismo das grandes transformações que temos visto no mundo está nas mãos da juventude. É claro que a forte crise na qual o capitalismo está submerso favorece o contexto de mobilização. De maneira simplista, as condições “naturais” de dificuldade se acentuam de maneira tão abrupta, aceleradas por opções políticas, que não é mais possível a internalização para a população. O que chama atenção é que eventos como toda a Primavera Árabe, ou as imensas manifestações na Grécia, Espanha, Chile e outros países, tem acelerado a vontade da população de tomar os rumos da história em países onde a crise ainda não recai de maneira aguda.

Falo especificamente do nosso querido país. Um evento corriqueiro e banal como as eleições, se transformou na grande oportunidade de participar da política e de construir um movimento muito mais amplo do que o processo eleitoral. A juventude impulsionou as campanhas mais à esquerda que tivemos por esse país afora, com um destaque óbvio ao belíssimo movimento que virou a candidatura de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro. Um crescimento quantitativo e qualitativo. Num mar de despolitização, os ventos que sopraram de outros continentes chegaram até aqui. A juventude brasileira começa a ser inspirada pela possibilidade de ser protagonista em algo que pode mudar a vida das pessoas, mas não só a utopia, as vitórias concretas no mundo Árabe indicam que não só é possível, como é fundamental assumir a tarefa de ser polo de resistência aos absurdos que vivenciamos todos os dias. E quem melhor que a juventude para iniciar tal trabalho?

O que vimos com essa eleição é um início promissor de uma juventude que tem preocupação com gerações futuras, que quer formar e ser formada, que enxerga a necessidade de refletir os caminhos para uma sociedade mais justa, mas que alinha o pensar e a prática. Percebe que a cobrança, a luta em seu sentido mais geral, não é intercalada a cada dois anos. Que o objetivo é a mudança radical da sociedade, mas que é necessário travar essa batalha em todos os campos. No contexto atual, não haverá transformações que não passem pelas mãos de uma juventude que compreenda a sua importância. Precisamos dela!

Marcio Ornelas

A Primavera Carioca é agora!

A palavra Crise, no latim Crisis, significava “momento de decisão, de mudança súbita”. E como temos ouvido falar nessa palavra nos últimos tempos. A crise econômica, social, política e ambiental que vivemos, cada uma com sua particularidade (não quero correr o risco de ser generalista), são facetas do mesmo fenômeno: a crise sistêmica do nosso modelo civilizatório. Quero dizer que a forma como a sociedade se estrutura e se perpetua, acaba por esgotar as possibilidades da vida humana em todas essas dimensões apontadas. Para mostrar que não estamos falando de sandices teóricas, assuntos etéreos em escala inalcançável, pensem nas últimas grandes manifestações populares que aconteceram no Rio de Janeiro. Bombeiros, profissionais da educação e operários do COMPERJ, por exemplo, além de terem em comum a luta por melhores salários e condições de trabalho, travam uma batalha, sobretudo por dignidade. Isso por que as condições mínimas de reprodução da vida estão ameaçadas, profissionais com funções sociais importantes são desvalorizados, aviltados pelo escárnio com dinheiro público que contrasta com as negativas de reajustes salariais. A sociedade de maneira geral, não garante a tão merecida dignidade da classe trabalhadora. Essa é uma crise que tem um efeito contundente no cotidiano dos trabalhadores, definitivamente é uma crise humana.

Pensem como a existência humana está degrada na sociedade em que vivemos. Achamos natural funcionarmos nos ritmos comerciais e empresarias, vivemos um tempo que não é o nosso. O homem meramente como um recurso, é uma concepção que não é óbvia do ponto de vista de qualquer outra sociedade que não seja a capitalista. Como se não bastasse, sofremos com a distorção completa de valores da vida em sociedade, onde a competição é incentivada em demasia e o individualismo é valorizado. Produtora de fobias, intolerâncias, preconceitos e neuroses. Pensem em como toda essa imposição deteriorou a essência humana, como isso afeta diretamente a forma como nos relacionamos com outras pessoas, sempre com desconfiança, com um pé atrás. É certo que podemos ter perspectivas melhores, mas precisamos ter clareza de que é necessário um questionamento profundo de toda a base que mantém essa sociedade.

Toda essa longa introdução só para dizer que precisamos agarrar as chances que temos de começar uma transformação. Se crise é também o momento de uma mudança súbita, no Rio de Janeiro essa alternativa está posta. Marcelo Freixo é o sopro de esperança – que há muito tempo não víamos – para uma cidade mais justa, que proporcione uma vida melhor para os seus habitantes. Não por acaso os dois primeiros parágrafos desse texto, abordam assuntos como a luta por dignidade e a crise humana que vive nossa sociedade. Marcelo Freixo é um militante histórico dos direitos humanos, esses são temas recorrentes em quase todas as suas falas e também na sua atuação política, sua preocupação em discutir uma cidade que seja boa para morar é constante. Uma voz destoante é fundamental para não cairmos na onda das falsas verdades que propagam o prefeito e a mídia local. O Rio de Janeiro vive um grande momento, onde muito se investe por aqui, mas como pode tantos bilhões circulando e isso não garantir uma cidade mais digna para as pessoas? Esse simples questionamento diz muito sobre a visão que o Marcelo Freixo tem sobre a cidade.

Como principal nome que surgiu no cenário da política carioca nos últimos anos, a disputa para prefeitura será dura (uma máquina pesada do adversário e uma coligação de quase 20 partidos), mas será real. Marcelo Freixo tem força e apelo nos movimentos sociais, na juventude, na classe artística e com intelectuais. E a sua campanha já ganha ares de movimento. Como gosto de falar é um Rio melhor que está em jogo. Tantos já perceberam que é preciso refutar esse poder público que incentiva e promove o distanciamento social e espacial entre as classes, que elege como inimigo número um da sociedade o pobre, negro e morador de favela. Esse estereótipo de vilão é desprovido de todo e qualquer serviço público, só conhece o Estado através da violência. Vivem sempre sobre o jugo de um poder impiedoso, seja ele do tráfico, das milícias ou do próprio Estado. Quantas fortalezas na Barra da Tijuca já não foram vendidas com esse discurso do medo?  É preciso coibir a especulação imobiliária. Não se pode ter receio de uma gestão mais democrática e participativa.

De todas as coisas importantes que o Marcelo fala, talvez a que mais sensibilize, é quando ele diz que quer disputar a vida de cada menino e menina nessa cidade. De fato o projeto para eles é o da reclusão e o da vigilância. Fica claro de que o Rio de Janeiro não pode esperar, essas pessoas não podem esperar. O movimento que começa a crescer movido pela necessidade de transformações urgentes é um grande feito inicial. É certo falar que independente do resultado eleitoral, o Rio de Janeiro não será mais o mesmo. Parece que a Primavera Carioca já começou!

Marcio Ornelas

Da crise econômica à crise política

 A crise econômica que afeta toda a Europa, mas que hoje tem como foco principal a Grécia, realmente impressiona. A dimensão é cada vez maior ao que imaginávamos inicialmente e parece não conhecer barreiras, se alastrando por todo o mundo, seja em grandes ondas ou em marolinhas.  Não quero aqui parecer muito entusiasta da atual conjuntura e acabar me precipitando, vou adotar uma análise mais cautelosa, pois de fato acho muito cedo para dizer até onde essas revoltas e esses descontentamentos podem chegar, se estamos diante de um acontecimento que pode mudar os rumos da história ou mesmo se é o fim de um modo de produção. Mas o que não pode haver são dúvidas acerca da importância desse acontecimento, independentemente da direção que vá tomar, essa crise é um marco.

Alguns mitos que rodeavam a existência do capitalismo se afundaram junto com a economia de vários países Europeus. Primeiro: o modelo de blocos econômicos, considerado até bem pouco tempo atrás o ápice da organização capitalista, não conseguiu evitar a crise e mais, pode ser o grande entrave para a recuperação dos países afetados. Segundo: o capitalismo não é capaz de evitar as grandes crises, mesmo após séculos de desenvolvimento. Passou toda a década de 90 e de 2000 administrando crises menores, muitos analistas consideravam o sistema vacinado. Terceiro: é o que eu mais gosto de lembrar, a impossibilidade de mobilização das massas na era “pós-moderna”. O grande protagonista dessa crise não é tal governo ou chefe de Estado, e sim o povo, que nas ruas transformou uma crise econômica quase intangível, numa crise social e conseqüentemente evidenciaram a gravidade da situação. Aliás, essa crise não é um marco por ser a maior do século, mas porque houve resposta, a população ampliou a dimensão do fato elevando a conjuntura a outro patamar de importância. A crise econômica não faz a história, o povo faz.

O ato de se resignar a uma medida extrema que visa corrigir o problema, não expõe a fragilidade política do momento. É por isso que resposta dada nas ruas fez dessa crise econômica uma notícia recorrente na mídia, ser generalizada e motivo de preocupação constante. Numa economia globalizada e cada vez mais integrada, é normal que num período de turbulência, seus reflexos ecoem por todos os cantos. Ou seja, é esperada alguma mazela financeira, mas as políticas e sociais são verdadeiramente temidas, ainda mais quando viram exemplos. E essa crise é um poço de exemplos perigosos. Na situação idealizada pela burguesia grega, eles apertariam ao máximo a população, ela compreenderia e com o tempo as coisas se ajeitariam. A população grega fez uma opção de não serem os únicos que pagam a conta.

Vou destacar mais um elemento diferencial dessa crise. A gravidade econômica do momento certamente é um elemento de preocupação, mas a crise política (que até então não rondava com tanta força as crises econômicas) é o que realmente levou a população grega para as ruas. Um momento financeiro difícil causa tensão, mas pode ser amenizado se ainda se tem confiança no governo, se observa boa vontade e boas medidas para resolver o problema. Mas a solução encontrada para tirar a Grécia do buraco, foi fazer duros cortes nos direitos dos trabalhadores, o que tornou a já complicada situação, insustentável. Mas não se enganem, o governo grego não escolheu o lado que ia ficar agora, só que a relação entre política e economia no sistema capitalista é de simbiose, em períodos comuns é difícil de separar quem é o que, ou quem serve a quem. Permanece uma falsa sensação de um país para todos. Mas a grave crise, exigia uma resposta imediata, o que forçou a saída dos governantes de cima do muro, desfazendo a simbiose. Quando a população realmente percebeu que essa política está e sempre esteve a serviço do grande capital e da burguesia, o clima de tensão se eleva ao desespero. A governabilidade fica comprometida e o povo vai se manifestar, pois tem a noção de que têm representantes que não podem ajudar por já estarem comprometidos. Por isso é que independente dos rumos, esse é o fato que nós precisamos exaltar e com ele aprender. Não é fácil, mas gregos poderiam estar em casa e nós não estaríamos debatendo isso agora!

Marcio Ornelas

A cosntrução dos espaços políticos

Nessas últimas semanas, pudemos acompanhar alguns casos que ganharam grande destaque na televisão e também nas redes sociais. Refiro-me especificamente aos casos de Pinheirinho e da greve da polícia militar da Bahia. No primeiro, a luta pelo direito à moradia, a vida com dignidade, a condição mínima de existência. No segundo, a luta mais do que justa por um salário decente e por melhores condições de trabalho. Estes dois casos distintos possuem muito em comum. Ambos ganharam contornos dramáticos e tratam de uma resistência popular a uma ordem que insiste em passar por cima sempre que for necessário. De parecido também possuem a cobertura criminosa das redes de televisão, que tratavam os envolvidos como vagabundos, sem-tetos, vândalos, marginais e todo o tipo de barbaridade que se pode imaginar. Excetuando os movimentos sociais organizados, algusn poucos partidos e uma parcela (não toda) da comunidade das redes sociais, a falta de manifestações de apoio das massas a esses dois casos, mesmo com tantas atrocidades cometidas pelas autoridades e elementos que apontavam para uma identificação com a causa, não só chama a atenção, como denuncia um dos maiores entraves para a transformação efetiva da nossa sociedade: a ausência de espaços políticos e de diálogo.

Esse é um problema que precisa ser superado aos poucos, é um trabalho de formiguinha. Mas a ausência de espaços onde se possa discutir a própria sociedade, falando sobre problemas, soluções e suas próprias bases de sustentação, não pode ser encarada como algo natural. A sociedade atual vive e sobrevive de uma exaltação extrema a dimensão econômica da vida humana. Toda aquela história que já cansamos de ouvir do trabalho como elemento que dignifica o homem, ou o homem como recurso, um gerador de riquezas. No trabalho reside a única forma de sobrevivência nessa sociedade, portanto, com a manutenção dessa sobrevivência cada vez mais difícil de ser realizada, sob condições cada vez mais adversas, não é de se espantar que todas as instituições produtoras e reprodutoras de imaginários, foquem todo o seu esforço na lapidação de um homem estritamente econômico, onde os seus sonhos e objetivos sejam de sucesso e de glória econômica. Sendo assim, as outras dimensões da existência humana em sociedade, ficam secundarizadas (dentre elas a política) diante da urgência da conquista da sobrevivência. A graça toda é que para o funcionamento da própria sociedade, a dimensão política é importantíssima, mas para a população ela tem que ser banalizada.

Não é interessante a construção de espaços que dêem a população uma visão mais ampla sobre o termo política (que sistematicamente é confundido com eleição, definitivamente não são sinônimos), seria um desvio tolo, desnecessário para o caminho do sucesso que desde cedo somos estimulados a seguir. Sintetizando: Não cabe a construção de espaços que questionem ou alimentem a desconfiança sobre o funcionamento da própria sociedade em questão, portanto, a ausência da dimensão política de nossas vidas não é natural. Só que paradoxalmente precisamos dessa dimensão para mudarmos as coisas, insistir na construção desses espaços é fundamental e ao mesmo tempo uma transgressão da própria lógica de funcionamento da sociedade. Hoje a política resume-se em um dia a cada dois anos, nada mais do que isso. Um fardo que esses cretinos nos obrigam a carregar. Nós odiamos a política, pois a atrelam as eleições, a corrupção, a partidos políticos questionáveis e a uma burocracia infindável. E por odiar tanto, esquecemos da dimensão essencial e singela da política, que é o debate constante e o aprendizado.

Só que esse tempo que precisamos para pensar e refletir, a sociedade não nos oferece de bom grado. A descrição a seguir é a da rotina de milhões de brasileiros, a imersão na rotina quase sempre não dá brechas. O cara chega cansado em casa, trabalhou por 8 horas, às vezes 9 ou 10 para conseguir um trocado a mais. Ganha pouco mais de 600 reais, é muito difícil manter o sustento da família, como pode ainda ter que se preocupar com política? E todo esse pensamento é justíssimo. Só que ele não quer passar por desenformado, aí liga a TV, coloca no jornal e assiste um resumo das principais notícias do Brasil. Com cortes rápidos ele observa cenas de confusão, protestos, revoltas. O âncora do jornal (sempre sério e de índole inquestionável) repete as palavras vândalos, vagabundos e outras mais como se fosse um mantra. Se passou no jornal é um fato, ele é obrigado a concordar com o apresentador. Esse é o quadro e há muito tempo é assim, a mídia segue sendo o principal (e às vezes o único) interlocutor para a população, e mudanças não estão programadas. Esse é o grande desafio. Fazem falta espaços onde se possa contextualizar o que acontece, onde se possa fazer um debate sério sobre os problemas da população, onde as conclusões não sejam mandadas de cima para baixo, onde possam ser construídas em conjunto. Não temos isso amplamente e não estamos próximos de ter. Mas se já possuímos a consciência de que um trabalho pedagógico de construção de um novo olhar sobre esse mundo é vital, então não estamos perdendo de zero.

Marcio Ornelas