São Gonçalo no atacado

supermercado guanabara

Na última semana vimos o rebuliço causado pela inauguração do Guanabara em São Gonçalo. Comemorado pelos governantes locais, alçado a uma das maiores conquistas da atual gestão para a cidade, o supermercado é tratado como o “evento” do ano.

Não se pode, evidentemente, culpar a população pela euforia que lhe toma. Quando um empreendimento pode representar uma sensível economia ao já apertado orçamento do gonçalense, poupando inclusive idas indigestas até Niterói, a histeria começa a fazer certo sentido. Mas a meu ver, a discussão não passa pela reação da população frente ao supermercado, tampouco se é a empresa A, B ou C que irá se instalar por aqui. O que está em jogo é um projeto reducionista para a cidade, limitador das potencialidades do município e que não compreende as demandas da população no âmbito geral. É uma visão que culmina na ausência de políticas públicas coerentes que pensem a cidade como um todo. Em resumo: São Gonçalo não pode ser pensada apenas como uma cidade com “muito espaço” para receber empresas.

Nesse sentido, é lamentável que pelos governantes o Guanabara seja endeusado (como ridiculamente fez o candidato da prefeita). Estamos falando de um supermercado e não mais do que isso. Da mesma forma, a inauguração ser considerada o evento do ano pelas autoridades, expõe de maneira brutal as carências do município e a pobreza de pensamento por quem administra. Impressionantemente isso parece não importar para casta política gonçalense, que apareceu em peso na festa de inauguração do supermercado.

Seguindo a lógica já amplamente adotada no Rio de Janeiro e em Niterói, São Gonçalo vai se transformando numa cidade empreendedora, onde o objetivo é vender os espaços sem mediar as consequências. Um exemplo disso é o Shopping que está sendo construído em Alcântara (bom comercialmente e péssimo em todo o resto). A dinâmica empreendedora enxerga a cidade por um viés unicamente econômico, orientando suas decisões por essa linha. Obviamente, com essa perspectiva, questões como a qualidade de vida da população ou outras necessidades como lazer e cultura, não entram na pauta de discussão na formulação desse modelo de cidade. Portanto, não se trata de uma odisseia contra o Guanabara, mas é um vislumbre de um projeto nocivo para São Gonçalo, que em momento nenhum estará aberto ao diálogo para satisfazer outras demandas da população.

Ou será que está de bom tamanho ter mais um shopping para gastar dinheiro ou mais um local para passar o fim de semana enchendo carrinhos de compra? E todo o resto sendo subvalorizado. Cedo ou tarde teremos que dar essa resposta.

Marcio Ornelas

Você acredita na Rio +20?

Para quem não sabe a Rio +20 é a conferência da ONU que vai reunir os líderes das nações mais importantes do mundo (em junho), com um único objetivo: pensar em soluções para os problemas ambientais, em como podemos viver num mundo melhor. Muito bonito, mas de boas intenções o inferno está cheio.

A Rio +20 tem esse nome, pois acontece exatamente 20 anos depois da ECO 92 (realmente eles são criativos), que foi uma outra conferência que tinha o mesmo objetivo. Não é segredo que de 92 para cá os problemas ambientais não diminuíram, pelo contrário, ficaram ainda maiores. Então você pode se perguntar qual o motivo de outra conferência dessas, já que eles não conseguiram resolver da primeira vez. Adianto-lhes com tranquilidade, também não solucionarão qualquer problema dessa vez. O motivo da Rio +20 passa sim por dar satisfação a uma parcela significativa da sociedade, que tomou consciência da importância da discussão sobre o tema meio-ambiente, por isso a espetacularização dessa conferência. A ECO 92 teve um peso importante ao chamar a atenção do mundo para esse problema, mas as soluções tiradas pela conferência não eram reais. Dali ganhou força o conceito mais absurdo dos últimos tempos: Desenvolvimento Sustentável. Houve um reconhecimento público dos países desenvolvidos sobre os danos ao meio ambiente, confirmaram que os países em desenvolvimento precisavam de apoio financeiro e tecnológico para caminharem rumo ao  Desenvolvimento Sustentável. Entretanto, caminhar rumo ao Desenvolvimento Sustentável é ir para o nada, para o lugar nenhum, para o inalcançável. Diversos pesquisadores e intelectuais fizeram críticas de que o conceito não passava de um mecanismo para travar o crescimento dos países em desenvolvimento, a fim de manter as altas taxas de consumo e produção do mundo desenvolvido. Afinal, como ser sustentável com uma economia do tamanho dos EUA que cresce ano após ano?

O tempo mostrou que o Desenvolvimento Sustentável no sistema capitalista é impossível. Qualquer um que ainda fale nisso em pleno ano de 2012 é completamente louco. Daí a urgência da Rio +20, da sua importância. Depois do fracasso retumbante das estratégias anteriores e a impossibilidade de sustentar a falácia por mais tempo sem ser aviltante com a sociedade, é preciso chegar a uma nova “solução”. Os olhos do mundo inteiro estarão voltados para o Rio aguardando uma resposta que acalmem os ânimos diante da grave crise. Tenho certeza de que darão uma resposta, pois montaram o teatro justamente para isso, mesmo que seja mais uma das iniciativas falaciosas que possam ser sustentadas por mais 20 anos. Não quero dizer que não exista uma real preocupação com a questão ambiental, mas também não existe uma real preocupação com a causa da crise. O fato do capitalismo ser um sistema que na essência tende a consumir os recursos naturais para sustentar o próprio desenvolvimento e faz parte da sua lógica um crescimento ininterrupto, tal questão não será levantada pela cúpula. Uma reestruturação no sistema e no modo de produção (consequentemente da sociedade), é o debate mais difícil de se fazer, porém o mais promissor, será sumariamente ignorado. Tudo mais que sair será meramente falacioso ou paliativo. A Inglaterra nos últimos meses teve uma refração de sua economia de 0,2% e está oficialmente em recessão. Esse é um exemplo recente de como o capitalismo não comporta de maneira saudável a redução (nem que seja micro) da sua economia.

O lado bom da conferência é que a luz da Rio +20 vão ser realizados fóruns alternativos com o movimento estudantil, movimentos sociais, pesquisadores e intelectuais. Com certeza esses espaços vão ser muito mais atrativos no que diz respeito à seriedade do debate, discutindo os problemas ambientais, causas, consequências e soluções. Sem contar o aspecto político inerente, pois não vamos esperar mais 20 anos para constatar o fracasso óbvio das novas iniciativas. Num fórum onde se preocupam mais com a sua produção do que com os debates reais, uma pena a Rio +20 não ser realizada no Teatro Municipal, pois a certeza maior é de que será um espetáculo inesquecível.

Marcio Ornelas

São Gonçalo da ilusão

Muito se fala no crescimento sem precedentes na história de São Gonçalo, mas num ano tão importante como esse, é essencial destacar o enorme abismo que existe entre o marketing eleitoral e a realidade. São Gonçalo é hoje a cidade dos discursos vistosos, o horizonte que nunca chega. Esse artigo é para expor as minhas preocupações como morador dessa cidade.

Se os simpatizantes de Panisset falarem que nunca São Gonçalo teve tanto investimento, sou até capaz de concordar, mas temos que refletir se só isso traz o tão esperado desenvolvimento. Primeiro: não é mérito da prefeita a onda de investimento sobre São Gonçalo, são verbas federais do Programa de Aceleração do Crescimento, que nada tem a ver com a verba municipal. Tanto dinheiro assim, não é porque a prefeita é amiguinha da presidenta, e sim porque São Gonçalo hoje é uma região estratégica para o Estado, assim como todos os municípios do entorno do Comperj. Aliás, São Gonçalo perdeu a disputa para Itaboraí para ver quem ficaria com o Comperj. Segundo: a má gestão desses recursos é verdadeiramente preocupante. Boa parte desses recursos são para obras de saneamento/asfaltamento e de dragagem, mas mesmo com as verbas sendo liberadas com antecedência, as obras estão constantemente atrasadas. Diversos moradores ainda reclamam da qualidade do material usado nas obras, com ruas ficando esburacadas pouco tempo depois de terem sido asfaltadas.

Todo o parágrafo anterior foi só para falar das verbas federais, que servem sim para o desenvolvimento da cidade, mas que se mal aplicadas não conseguirão atingir sequer seu principal objetivo: potencializar a capacidade de ação do Comperj. Aliás, um gestor consciente estaria questionando se é o ideal para a cidade, voltá-la para um único empreendimento. Os investimentos que chegam de longe, fazem parte dessa premissa, tem que ser para e pelo Comperj. A estimativa é de que nos próximos dois anos os trabalhadores do Comperj cheguem aos 30 mil (triplicando), e isso fatalmente vai impactar São Gonçalo. Existe algum planejamento para o crescimento que vai haver em São Gonçalo? Fica claro que não. Os próximos anos serão vitais, esse grande empreendimento vai fazer a cidade explodir, é preciso fazer um desenvolvimento pensado, explorando outras partes da cidade. O que acontece é que a prefeita agradece muito a Deus por essa verba extra, na qual ela pode asfaltar tantas ruas e dizer que a cidade cresceu, afiando o seu já conhecido marketing eleitoral. Assim ela está preparada para eleger qualquer sucessor que ela queira, o Konder ou qualquer outra invenção. São Gonçalo vai crescer sim (mesmo que seja só populacionalmente), mas não está preparada para isso, e nem faz menção de se preparar. Essa já é uma grande preocupação de todo pesquisador que se dedica a estudar a nossa cidade.

Mas se falarmos de recursos locais, imediatamente vem a pergunta: onde eles estão? O que São Gonçalo arrecada, parece não existir. São Gonçalo tem a pior saúde do Estado, que teve um concurso para médicos na cidade que foi vetado na justiça pelo CREMERJ, pois o salário oferecido era abaixo do mínimo. Não precisa fazer nem muito esforço para entender porque nossa saúde é a pior do Rio. Mas a educação também está péssima, com constantes reclamações de superlotação de salas e os já conhecidos péssimos salários para os professores. A submissão da prefeitura com as empresas de ônibus também é irritante, até hoje o transporte alternativo (promessa antiga) não está definitivamente regularizado. O trânsito da cidade só piora e se enganam os que pensam que a prefeita nada poderia fazer, essa discussão passa pela questão anterior de explorar as potencialidades econômicas de outras regiões. É evidente que se todo empreendimento que vem para São Gonçalo se instalar no centro da cidade, teremos as principais vias sempre congestionadas e os outros bairros a mercê desse caos. É preciso sim uma intervenção da prefeitura. Muita gente não tem nenhuma dessas informações (que também, diga-se de passagem, não aparecem na propaganda da prefeita), mas é injustificável alguém conhecer tudo isso e dizer que a prefeita faz um bom trabalho.

Mas vai que você é muito fã, mas muito fã da prefeita. O que você vai dizer das inúmeras denúncias do ministério público sobre a sua conduta? Tem de tudo, desvio de verbas públicas, uso da máquina pública para se reeleger, uso do material escolar e de outros projetos da prefeitura para autopropaganda. Diversas denúncias sobre exploração de funcionários da prefeitura, que tinham que trabalhar fora do seu horário de trabalho, sem ganhar hora extra, para ajudar na campanha da prefeita. Depois de tudo isso, mesmo que ela tivesse movido mundos e fundos por São Gonçalo, essa mulher não deveria ganhar o seu voto, pois ela é o que há de pior na nossa política. Não deveria nem estar solta, quem dirá ocupando um cargo público.

São Gonçalo tem tudo para crescer, mas tem que ser com responsabilidade social, com ética, com honestidade. Tem que ser com transparência e planejamento. Nesse momento tudo que nós temos é uma doce ilusão.

Marcio ornelas

Região e Oriente Médio

O conceito de região está longe de ser um consenso dentro da geografia, contestado por muitos autores no que tange a sua base de sustentação e no que diz respeito a sua própria relevância para a ciência. Mas ao analisarmos o Oriente Médio, fica impossível não admitir a importância da região. Longe de termos a pretensão de explicar toda a complexa realidade do Oriente Médio através de apenas um conceito, mas ao mesmo tempo é um erro aprofundar-se em qualquer analise sem questionar a própria regionalização vigente, que entendemos como produtora de realidade que permanece há muito tempo inalterada. Entendemos que uma discussão sobre o conceito de região seja o princípio para se compreender as relações globalizantes e imperialistas que avançam sobre o Oriente Médio.

O próprio recorte que toma o Oriente Médio enquanto região está longe de ser um consenso e aparece nos livros de maneira diversa, hora incluindo um país e excluindo outro. Isso se reflete numa regionalização pautada por características exclusivamente físicas de localização, sendo essa variação de país uma irrelevância para a regionalização. A região que abrange o Oriente Médio possui povos com etnias, religiões, regimes e economias distintas entre si, mas que ao aparecerem no mapa e nos discursos enquanto Oriente Médio, tem a sua realidade homogeneizada e absurdamente simplificada. É essa regionalização que predomina até hoje para compreender o Oriente Médio, aceitá-la e partir dela numa análise significa concordar com o discurso que a sustenta, de que absolutamente nada no Oriente Médio aconteceu para que se justifique outra regionalização. È preciso antes de tudo desconstruir essa visão orientalista que aponta para um Oriente Médio imóvel, paralisado, atrasado e sem história, ou melhor, que o oriente é só mais um palco por onde o ocidente conduz a história. É claro que essa é uma visão abrangente de leitura do oriente pelo ocidente e se expande para além de um conceito, estando presente nas pinturas, filmes, livros e todas as variadas formas de se retratar o Oriente Médio com um único povo (os subalternos) e uma única paisagem (desértica). Mas é preciso admitir que evidentemente essa visão também está impregnada na ciência, e uma regionalização que permanece inalterada por tanto tempo, mostra isso muito bem.

Na verdade em trabalhos anteriores já mostramos que o Oriente Médio não está imóvel e indiferente aos fenômenos da globalização e da economia universalizada. As imagens que mostram o Oriente Médio moderno são contrastantes demais com os discursos que o indicam como local do atraso. Bahrein, Qatar, Abu Dhabi e Dubai são exemplos dessas cidades pós-modernas, de urbanização “futurista”, lugar do luxo, riqueza e prosperidade. Mas a importância de retomar essa discussão é para salientar um movimento que está em curso, de inserção na dinâmica do capitalismo global de maneira contundente. E contrariando a tentativa da velha visão que homogeniza o Oriente Médio, fazem isso justamente ressaltando o exótico e o diferente. Frisando ainda mais a particularidade da sua cultura, para criar uma identidade e um entretenimento diferenciado. Além de obviamente representar um movimento que indique não só a mobilidade, mas que confronta o discurso do atraso, ainda se utiliza do elemento cultural para fazer questão de ressaltar as diferenças na criação de algo único. Mas outro ponto importante é a desconstrução da tendência homogeneizante da globalização, na ênfase das diferenças. Antes de a região ser o local da aproximação é o local da distinção.

Assim como a complexidade das relações exigem, a região não pode se dar ao luxo de ser o engessamento dessas relações. Uma vez que tentamos apontar para uma regionalização que mostre um Oriente Médio cada vez mais integrado com o sistema internacional, sabemos que esse padrão de organização e urbanização que mostram uma região fora da lógica do conflito, não se dá de forma contínua e coesa. Dependem de fatores como estabilidade interna (garantir a segurança do capital) e elemento que subsidie esse projeto (geralmente o petróleo), por exemplo. Mas mesmo que descontinuados, se caracterizam região pela aproximação em alguns aspectos e pelas relações que detém, sendo infinitamente mais importantes que a continuidade dos territórios. Admitir esse tipo de variabilidade torna a regionalização algo extremamente mais complexo, mas também a única maneira de se aproximar adequamente do real. Ainda que tenhamos que concordar que a regionalização enquanto um instrumento de produção da realidade, será alterada drasticamente se outros fatores forem colocados como relevantes, pois estaremos produzindo outra realidade. O importante é ter como fundamental que as novas relações que se dão em diversas escalas, não permitem que o fundamental da região seja a sua coesão espacial.

À medida que o espaço ao mesmo tempo se globaliza e se fragmenta, de certa forma reduzindo (ou, numa linguagem cartográfica correta, ampliando) as escalas de diferenciação e “in-equalização”, fica muito mais difícil encontrar regiões geograficamente mais estáveis e dotadas de continuidade e/ou contigüidade nitidamente estabelecidas. Nesse sentido é que podemos falar tanto de redes regionais […] quanto em regiões com buracos […].

Sendo assim, as “redes regionais” são os pontos de aproximação, que ligam efetivamente os locais a uma rede, constituindo assim uma região. O determinante não é a sua continuidade física, mas sim a sua integração através de relações (sejam elas econômicas, culturais ou políticas). Mostrando a faceta altamente seletiva da formação das regiões, as “regiões com buracos” estão à margem da integração, podem até estarem interpostas fisicamente entre as redes que se formam, mas são puladas, ignoradas, justamente por não compartilharem das características que ligam e formam a região.

O CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) que tem como membros: a Arábia Saudita, Oman, Kwait, Bahrein, Os Emirados Árabes Unidos e o Qatar, cujo objetivo é se diferenciar dos países do entorno, na formação de um bloco de integração que possa afastar a instabilidade política e a crise econômica que assola a região, tornando difícil a reprodução do capital. Iraque e Irã (que também rodeiam o Golfo Pérsico) foram sumariamente ignorados pelo CCG, justamente por não atenderem os critérios de conformação do bloco. E ainda que o nome sugira uma regionalização por características físicas, vemos que isso não é o preponderante, uma vez que as relações conturbadas de Irã e Iraque no âmbito regional e internacional os afastam da lógica de integração ao sistema internacional do bloco. O CCG representa um claro avanço da organização política dos países no Oriente Médio, buscando sempre uma inserção mais satisfatória para a dinâmica global, uma vez que negocia enquanto bloco econômico, mas estabelece parcerias de cooperação em áreas como cultura, educação e saúde. Ainda tentam exercer politicamente um ordenamento na região, pensando na expansão da própria área de influência, tentando sempre tirar posições unitárias quantos aos problemas da região. Mas não podemos desprezar a outra vertente das relações que compõe o CCG: o imperialismo. Uma vez que as monarquias que compõem o bloco não são um problema para a reprodução da lógica capitalista, e estranhamente nem a estabilidade interna e o crescimento econômico sendo conseguidos através de forte repressão a organização dos trabalhadores, são um problema do ponto de vista dos direitos humanos, o CCG assume um caráter fundamental que é o de porta de entrada e de facilitador da expansão do imperialismo na região.

Precisamos saber tratar com cuidado a duplicidade dessas relações, mostrando o dinamismo que implica sobre a região. Da mesma forma que existe um avanço do imperialismo sobre o Oriente Médio, esse avanço se deve em parte a própria reorganização da região, ou melhor, a própria diferenciação da região, conseqüentemente desconstruindo visões que sempre permearam o imaginário ao se falar de Oriente Médio. Mas ainda que essa inserção gere uma concentração de renda e um massacre a classe trabalhadora (os mesmos problemas do ocidente), não podemos desconsiderar o esforço para a construção de outra região que se distinguisse do “caos” permanente, sendo considerada atrativa do ponto de vista da dinâmica do capitalismo global. Como já dito anteriormente, considerar essas relações uma via de mão única, ou seja, a ação do imperialismo sobre o Oriente Médio, seria simplificar e não compreender o quanto a região mudou drasticamente.

Marcio Ornelas

Morro do Bumba: uma tragédia quase esquecida

Em 8 de abril de 2010, um grande deslizamento de terra acontecia no Estado do Rio de Janeiro. Depois de uma intensa chuva, diversas áreas de encosta não suportaram e vieram abaixo. Ao todo 220 mortos e mais de 5.000 famílias desabrigadas. Naquele ano o epicentro de destruição e midiático foi o morro do Bumba em Niterói. Mais de um ano após a tragédia, pouco ouvimos falar do caso. Os desabrigados da chuva em Niterói vivem até hoje no 3° Batalhão de Infantaria em São Gonçalo, que sem estrutura para receber mais de 50 famílias, só permite a vivência em completa situação de insalubridade. Problemas com a comida que é servida, com a manutenção e a falta de higiene do abrigo. Ali permanecem sem a menor ideia de quando por si só poderão deixar o 3° BI. Como se não bastasse uma assistência precária, ainda sofrem com constantes atrasos do aluguel social (um benefício de R$ 400 do qual tem direito) e com as recorrentes ameaças de despejo. A verdade é que os moradores caíram no esquecimento das autoridades e da grande mídia, e ainda pagam muito caro por um fato do qual não são responsáveis.

Precisamos esclarecer alguns pontos antes de começarmos a falar sobre o morro do Bumba. É inerente a essa história o aspecto físico e natural. É extremamente importante estudar as dinâmicas de encosta e fazer um mapeamento delas, a fim de averiguar quais as áreas oferecem o maior risco. Assim como se faz necessário continuar desenvolvendo um estudo climático de longo prazo para compreender o comportamento da estação no decorrer dos anos. Os deslizamentos de terra precisam sim serem explicados e compreendidos nos seus aspectos físicos e naturais enquanto dinâmica das áreas de encosta, mas é preciso considerar a ação antrópica como um fator relevante para potencializar a sua ocorrência. Faz-se mais necessário ainda por se tratar do Estado do Rio de Janeiro, que possuí uma geomorfologia acidentada, onde aumentam os números de ocupações irregulares nessas encostas. Essa é uma combinação sem dúvida muito perigosa.

Mas acontece que quando falamos do Morro do Bumba, não estamos nos referindo meramente a um deslizamento. Estamos falando de uma tragédia de grandes proporções que vitimou um elevado número de pessoas. Estamos falando de dissolução de famílias inteiras. Por mais relevante que sejam os fatores naturais para explicar o deslizamento, esses mesmos fatores não conseguirão compreender a tragédia, o número de mortes ou mesmo o porquê daqueles moradores estarem ali. Por uma razão muito simples, a causa da tragédia não está relacionada aos aspectos naturais e sim aos sociais. Não foram as chuvas intensas ou a dinâmica de encosta as responsáveis por esse acontecimento lamentável. Insistir nas causas naturais para justificar algo tão terrível é inaceitável, só serve para a despolitização do debate sobre algo recorrente no Estado do Rio de Janeiro, e claro para mascarar a omissão histórica das nossas autoridades e um projeto de modelo urbano em curso que massacra o pobre.

Só para contextualizar, não podemos deixar de lembrar que estamos falando de Niterói. Ela é hoje uma das cidades mais valorizadas do Brasil, com bairros que possuem o metro quadrado uma verdadeira fortuna. O capital imobiliário atua pesadamente lançando projetos atrás de projetos, inchando a cidade. Esse modelo de crescimento acelerado e desordenado, sendo comandado principalmente pelo capital privado imobiliário, traz uma série de problemas. E dentre esses problemas está o encarecimento do custo de vida, tornando inviável a moradia para o pobre onde esse setor imobiliário atua. Eles são literalmente forçados a se deslocaram das áreas recém valorizadas para áreas periféricas, que incluem os morros, as áreas de risco, onde o capital imobiliário não pode – por razões óbvias – lançar os seus projetos. Não podemos culpar o empresário por dentro da lógica capitalista querer obter o seu lucro, mesmo que isso implique numa parte da população vivendo em condições precarizadas, mas podemos e devemos culpar os governantes que permitem tais mandos e desmandos, preferem abraçar o lucro à sua população. Ignoram e não desenvolvem qualquer projeto sério em habitação. Mesmo após as tragédias, preferem remediar a situação com um auxílio de irrisórios R$ 400, esse é o valor para se reconstruir uma vida inteira. Definitivamente essa não é uma tragédia sem culpados.

Quanto aos desabrigados, é bom que se diga que eles não estão passíveis nesse processo, pelo contrário, atuam de forma bem organizada. Conseguem fazer reuniões sistemáticas, atuam tanto pela área jurídica (evitando serem despejados do abrigo, por exemplo) quanto pela área política, mobilizando a organização de manifestações e passando em escolas e universidades, para denunciarem o completo abandono ao qual estão submetidos. É importante que o descaso dos nossos representantes não sejam esquecidos. A revista Empty é solidária à luta dos desabrigados, assim como um espaço aberto para novas denúncias e reivindicações. Eles esqueceram, mas nós não!

Marcio Ornelas

obs: Texto originalmente publicado na Revista Empty n° 1