A UERJ em pauta

Faz mais de 1 ano que escrevi para esse blog o texto Um caos chamado UERJ, um dos posts mais acessados até hoje. Descrevia de maneira rápida os problemas estruturais e de organização que a universidade enfrentava, assim como o jogo político que relegava à UERJ o papel de transtorno estadual. Muito brevemente mencionei uma das demandas mais importantes para os professores: a dedicação exclusiva. E nesse tempo que passou os professores esperaram e negociaram incessantemente para conseguir esse benefício, mas a coisa não avançou, a UERJ está em via de entrar em greve, vivenciando uma de suas crises mais profundas.

Nos últimos anos a defasagem salarial entre o professor universitário da UERJ e de uma universidade federal, aumentou consideravelmente.  Algumas greves aconteceram, mas a política do governo Cabral sempre foi muito dura com essas mobilizações. O fato é que nos últimos anos a UERJ vem perdendo uma série de profissionais para as universidades federais. Isso implica numa radical diminuição da capacidade da universidade em sustentar o tripé fundamental da sua existência: ensino, pesquisa e extensão. Falando claramente, um professor que deixe a UERJ, leva consigo toda a sua qualificação profissional e sua produção científica. Isso impacta diretamente sobre a universidade que historicamente investiu e fez concessões  para melhoria do seu quadro docente, mas também sobre o aluno que arca com a redução de bolsas e com a queda da qualidade do ensino.  Para reparar a evasão, a universidade recorre aos professores contratados, que trabalham num regime ainda mais precário e ganham um salário absolutamente ridículo. Não quero aqui questionar a capacidade de nenhum professor sob contrato, mas sim ressaltar o quanto é prejudicial para a universidade o aumento de profissionais que trabalhem nessas condições, sem poder desenvolver seus projetos científicos (impossibilidade de oferecer bolsa aos estudantes) e não poder participar efetivamente da vida política da faculdade. A saída em massa de professores acaba se tornando uma bola de neve que vai aos poucos apequenando a UERJ.

A dedicação exclusiva é um benefício que aumenta os vencimentos dos professores que trabalharem exclusivamente na UERJ. É importante dizer duas coisas: primeiro que muitos professores, até mesmo para manter a qualidade do ensino e da pesquisa, já trabalham exclusivamente na UERJ sem receber nada a mais; segundo que a UERJ é única universidade pública do Brasil que não possui esse regime de trabalho. Portanto, essa reivindicação da categoria não é nenhum absurdo como o governo estadual faz parecer. Hoje a dedicação exclusiva é vista como uma das formas de conter a evasão de professores e de revitalizar a universidade, dando condições de trabalho que nunca antes foram dadas.

E toda essa negativa e resistência em conceder o justo benefício aos professores, se choca com a facilidade das inúmeras isenções de impostos dadas pelo governo Cabral a uma série de empresas e também com o mais recente escárnio do Governador que foi a sua farra em Paris. Para piorar, lamentavelmente hoje a UERJ tem um reitor que prefere se sentar numa audiência pública e defender o encolhimento da universidade, do que zelar pelo seu funcionamento pleno e pelos seus funcionários. Diante de tantos absurdos a situação se torna insustentável, a greve está sim em pauta, e se for necessária nós devemos apoiá-la incondicionalmente. Conquistar a DE é a batalha mais imediata, mas para nos vermos realmente livre desse espectro do sucateamento da educação, vamos ter que expurgar toda essa corja que se deleita ao ver o fim lento da universidade mais antiga do Estado.

Marcio Ornelas

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Você acredita na Rio +20?

Para quem não sabe a Rio +20 é a conferência da ONU que vai reunir os líderes das nações mais importantes do mundo (em junho), com um único objetivo: pensar em soluções para os problemas ambientais, em como podemos viver num mundo melhor. Muito bonito, mas de boas intenções o inferno está cheio.

A Rio +20 tem esse nome, pois acontece exatamente 20 anos depois da ECO 92 (realmente eles são criativos), que foi uma outra conferência que tinha o mesmo objetivo. Não é segredo que de 92 para cá os problemas ambientais não diminuíram, pelo contrário, ficaram ainda maiores. Então você pode se perguntar qual o motivo de outra conferência dessas, já que eles não conseguiram resolver da primeira vez. Adianto-lhes com tranquilidade, também não solucionarão qualquer problema dessa vez. O motivo da Rio +20 passa sim por dar satisfação a uma parcela significativa da sociedade, que tomou consciência da importância da discussão sobre o tema meio-ambiente, por isso a espetacularização dessa conferência. A ECO 92 teve um peso importante ao chamar a atenção do mundo para esse problema, mas as soluções tiradas pela conferência não eram reais. Dali ganhou força o conceito mais absurdo dos últimos tempos: Desenvolvimento Sustentável. Houve um reconhecimento público dos países desenvolvidos sobre os danos ao meio ambiente, confirmaram que os países em desenvolvimento precisavam de apoio financeiro e tecnológico para caminharem rumo ao  Desenvolvimento Sustentável. Entretanto, caminhar rumo ao Desenvolvimento Sustentável é ir para o nada, para o lugar nenhum, para o inalcançável. Diversos pesquisadores e intelectuais fizeram críticas de que o conceito não passava de um mecanismo para travar o crescimento dos países em desenvolvimento, a fim de manter as altas taxas de consumo e produção do mundo desenvolvido. Afinal, como ser sustentável com uma economia do tamanho dos EUA que cresce ano após ano?

O tempo mostrou que o Desenvolvimento Sustentável no sistema capitalista é impossível. Qualquer um que ainda fale nisso em pleno ano de 2012 é completamente louco. Daí a urgência da Rio +20, da sua importância. Depois do fracasso retumbante das estratégias anteriores e a impossibilidade de sustentar a falácia por mais tempo sem ser aviltante com a sociedade, é preciso chegar a uma nova “solução”. Os olhos do mundo inteiro estarão voltados para o Rio aguardando uma resposta que acalmem os ânimos diante da grave crise. Tenho certeza de que darão uma resposta, pois montaram o teatro justamente para isso, mesmo que seja mais uma das iniciativas falaciosas que possam ser sustentadas por mais 20 anos. Não quero dizer que não exista uma real preocupação com a questão ambiental, mas também não existe uma real preocupação com a causa da crise. O fato do capitalismo ser um sistema que na essência tende a consumir os recursos naturais para sustentar o próprio desenvolvimento e faz parte da sua lógica um crescimento ininterrupto, tal questão não será levantada pela cúpula. Uma reestruturação no sistema e no modo de produção (consequentemente da sociedade), é o debate mais difícil de se fazer, porém o mais promissor, será sumariamente ignorado. Tudo mais que sair será meramente falacioso ou paliativo. A Inglaterra nos últimos meses teve uma refração de sua economia de 0,2% e está oficialmente em recessão. Esse é um exemplo recente de como o capitalismo não comporta de maneira saudável a redução (nem que seja micro) da sua economia.

O lado bom da conferência é que a luz da Rio +20 vão ser realizados fóruns alternativos com o movimento estudantil, movimentos sociais, pesquisadores e intelectuais. Com certeza esses espaços vão ser muito mais atrativos no que diz respeito à seriedade do debate, discutindo os problemas ambientais, causas, consequências e soluções. Sem contar o aspecto político inerente, pois não vamos esperar mais 20 anos para constatar o fracasso óbvio das novas iniciativas. Num fórum onde se preocupam mais com a sua produção do que com os debates reais, uma pena a Rio +20 não ser realizada no Teatro Municipal, pois a certeza maior é de que será um espetáculo inesquecível.

Marcio Ornelas

São Gonçalo da ilusão

Muito se fala no crescimento sem precedentes na história de São Gonçalo, mas num ano tão importante como esse, é essencial destacar o enorme abismo que existe entre o marketing eleitoral e a realidade. São Gonçalo é hoje a cidade dos discursos vistosos, o horizonte que nunca chega. Esse artigo é para expor as minhas preocupações como morador dessa cidade.

Se os simpatizantes de Panisset falarem que nunca São Gonçalo teve tanto investimento, sou até capaz de concordar, mas temos que refletir se só isso traz o tão esperado desenvolvimento. Primeiro: não é mérito da prefeita a onda de investimento sobre São Gonçalo, são verbas federais do Programa de Aceleração do Crescimento, que nada tem a ver com a verba municipal. Tanto dinheiro assim, não é porque a prefeita é amiguinha da presidenta, e sim porque São Gonçalo hoje é uma região estratégica para o Estado, assim como todos os municípios do entorno do Comperj. Aliás, São Gonçalo perdeu a disputa para Itaboraí para ver quem ficaria com o Comperj. Segundo: a má gestão desses recursos é verdadeiramente preocupante. Boa parte desses recursos são para obras de saneamento/asfaltamento e de dragagem, mas mesmo com as verbas sendo liberadas com antecedência, as obras estão constantemente atrasadas. Diversos moradores ainda reclamam da qualidade do material usado nas obras, com ruas ficando esburacadas pouco tempo depois de terem sido asfaltadas.

Todo o parágrafo anterior foi só para falar das verbas federais, que servem sim para o desenvolvimento da cidade, mas que se mal aplicadas não conseguirão atingir sequer seu principal objetivo: potencializar a capacidade de ação do Comperj. Aliás, um gestor consciente estaria questionando se é o ideal para a cidade, voltá-la para um único empreendimento. Os investimentos que chegam de longe, fazem parte dessa premissa, tem que ser para e pelo Comperj. A estimativa é de que nos próximos dois anos os trabalhadores do Comperj cheguem aos 30 mil (triplicando), e isso fatalmente vai impactar São Gonçalo. Existe algum planejamento para o crescimento que vai haver em São Gonçalo? Fica claro que não. Os próximos anos serão vitais, esse grande empreendimento vai fazer a cidade explodir, é preciso fazer um desenvolvimento pensado, explorando outras partes da cidade. O que acontece é que a prefeita agradece muito a Deus por essa verba extra, na qual ela pode asfaltar tantas ruas e dizer que a cidade cresceu, afiando o seu já conhecido marketing eleitoral. Assim ela está preparada para eleger qualquer sucessor que ela queira, o Konder ou qualquer outra invenção. São Gonçalo vai crescer sim (mesmo que seja só populacionalmente), mas não está preparada para isso, e nem faz menção de se preparar. Essa já é uma grande preocupação de todo pesquisador que se dedica a estudar a nossa cidade.

Mas se falarmos de recursos locais, imediatamente vem a pergunta: onde eles estão? O que São Gonçalo arrecada, parece não existir. São Gonçalo tem a pior saúde do Estado, que teve um concurso para médicos na cidade que foi vetado na justiça pelo CREMERJ, pois o salário oferecido era abaixo do mínimo. Não precisa fazer nem muito esforço para entender porque nossa saúde é a pior do Rio. Mas a educação também está péssima, com constantes reclamações de superlotação de salas e os já conhecidos péssimos salários para os professores. A submissão da prefeitura com as empresas de ônibus também é irritante, até hoje o transporte alternativo (promessa antiga) não está definitivamente regularizado. O trânsito da cidade só piora e se enganam os que pensam que a prefeita nada poderia fazer, essa discussão passa pela questão anterior de explorar as potencialidades econômicas de outras regiões. É evidente que se todo empreendimento que vem para São Gonçalo se instalar no centro da cidade, teremos as principais vias sempre congestionadas e os outros bairros a mercê desse caos. É preciso sim uma intervenção da prefeitura. Muita gente não tem nenhuma dessas informações (que também, diga-se de passagem, não aparecem na propaganda da prefeita), mas é injustificável alguém conhecer tudo isso e dizer que a prefeita faz um bom trabalho.

Mas vai que você é muito fã, mas muito fã da prefeita. O que você vai dizer das inúmeras denúncias do ministério público sobre a sua conduta? Tem de tudo, desvio de verbas públicas, uso da máquina pública para se reeleger, uso do material escolar e de outros projetos da prefeitura para autopropaganda. Diversas denúncias sobre exploração de funcionários da prefeitura, que tinham que trabalhar fora do seu horário de trabalho, sem ganhar hora extra, para ajudar na campanha da prefeita. Depois de tudo isso, mesmo que ela tivesse movido mundos e fundos por São Gonçalo, essa mulher não deveria ganhar o seu voto, pois ela é o que há de pior na nossa política. Não deveria nem estar solta, quem dirá ocupando um cargo público.

São Gonçalo tem tudo para crescer, mas tem que ser com responsabilidade social, com ética, com honestidade. Tem que ser com transparência e planejamento. Nesse momento tudo que nós temos é uma doce ilusão.

Marcio ornelas

Da crise econômica à crise política

 A crise econômica que afeta toda a Europa, mas que hoje tem como foco principal a Grécia, realmente impressiona. A dimensão é cada vez maior ao que imaginávamos inicialmente e parece não conhecer barreiras, se alastrando por todo o mundo, seja em grandes ondas ou em marolinhas.  Não quero aqui parecer muito entusiasta da atual conjuntura e acabar me precipitando, vou adotar uma análise mais cautelosa, pois de fato acho muito cedo para dizer até onde essas revoltas e esses descontentamentos podem chegar, se estamos diante de um acontecimento que pode mudar os rumos da história ou mesmo se é o fim de um modo de produção. Mas o que não pode haver são dúvidas acerca da importância desse acontecimento, independentemente da direção que vá tomar, essa crise é um marco.

Alguns mitos que rodeavam a existência do capitalismo se afundaram junto com a economia de vários países Europeus. Primeiro: o modelo de blocos econômicos, considerado até bem pouco tempo atrás o ápice da organização capitalista, não conseguiu evitar a crise e mais, pode ser o grande entrave para a recuperação dos países afetados. Segundo: o capitalismo não é capaz de evitar as grandes crises, mesmo após séculos de desenvolvimento. Passou toda a década de 90 e de 2000 administrando crises menores, muitos analistas consideravam o sistema vacinado. Terceiro: é o que eu mais gosto de lembrar, a impossibilidade de mobilização das massas na era “pós-moderna”. O grande protagonista dessa crise não é tal governo ou chefe de Estado, e sim o povo, que nas ruas transformou uma crise econômica quase intangível, numa crise social e conseqüentemente evidenciaram a gravidade da situação. Aliás, essa crise não é um marco por ser a maior do século, mas porque houve resposta, a população ampliou a dimensão do fato elevando a conjuntura a outro patamar de importância. A crise econômica não faz a história, o povo faz.

O ato de se resignar a uma medida extrema que visa corrigir o problema, não expõe a fragilidade política do momento. É por isso que resposta dada nas ruas fez dessa crise econômica uma notícia recorrente na mídia, ser generalizada e motivo de preocupação constante. Numa economia globalizada e cada vez mais integrada, é normal que num período de turbulência, seus reflexos ecoem por todos os cantos. Ou seja, é esperada alguma mazela financeira, mas as políticas e sociais são verdadeiramente temidas, ainda mais quando viram exemplos. E essa crise é um poço de exemplos perigosos. Na situação idealizada pela burguesia grega, eles apertariam ao máximo a população, ela compreenderia e com o tempo as coisas se ajeitariam. A população grega fez uma opção de não serem os únicos que pagam a conta.

Vou destacar mais um elemento diferencial dessa crise. A gravidade econômica do momento certamente é um elemento de preocupação, mas a crise política (que até então não rondava com tanta força as crises econômicas) é o que realmente levou a população grega para as ruas. Um momento financeiro difícil causa tensão, mas pode ser amenizado se ainda se tem confiança no governo, se observa boa vontade e boas medidas para resolver o problema. Mas a solução encontrada para tirar a Grécia do buraco, foi fazer duros cortes nos direitos dos trabalhadores, o que tornou a já complicada situação, insustentável. Mas não se enganem, o governo grego não escolheu o lado que ia ficar agora, só que a relação entre política e economia no sistema capitalista é de simbiose, em períodos comuns é difícil de separar quem é o que, ou quem serve a quem. Permanece uma falsa sensação de um país para todos. Mas a grave crise, exigia uma resposta imediata, o que forçou a saída dos governantes de cima do muro, desfazendo a simbiose. Quando a população realmente percebeu que essa política está e sempre esteve a serviço do grande capital e da burguesia, o clima de tensão se eleva ao desespero. A governabilidade fica comprometida e o povo vai se manifestar, pois tem a noção de que têm representantes que não podem ajudar por já estarem comprometidos. Por isso é que independente dos rumos, esse é o fato que nós precisamos exaltar e com ele aprender. Não é fácil, mas gregos poderiam estar em casa e nós não estaríamos debatendo isso agora!

Marcio Ornelas

A cosntrução dos espaços políticos

Nessas últimas semanas, pudemos acompanhar alguns casos que ganharam grande destaque na televisão e também nas redes sociais. Refiro-me especificamente aos casos de Pinheirinho e da greve da polícia militar da Bahia. No primeiro, a luta pelo direito à moradia, a vida com dignidade, a condição mínima de existência. No segundo, a luta mais do que justa por um salário decente e por melhores condições de trabalho. Estes dois casos distintos possuem muito em comum. Ambos ganharam contornos dramáticos e tratam de uma resistência popular a uma ordem que insiste em passar por cima sempre que for necessário. De parecido também possuem a cobertura criminosa das redes de televisão, que tratavam os envolvidos como vagabundos, sem-tetos, vândalos, marginais e todo o tipo de barbaridade que se pode imaginar. Excetuando os movimentos sociais organizados, algusn poucos partidos e uma parcela (não toda) da comunidade das redes sociais, a falta de manifestações de apoio das massas a esses dois casos, mesmo com tantas atrocidades cometidas pelas autoridades e elementos que apontavam para uma identificação com a causa, não só chama a atenção, como denuncia um dos maiores entraves para a transformação efetiva da nossa sociedade: a ausência de espaços políticos e de diálogo.

Esse é um problema que precisa ser superado aos poucos, é um trabalho de formiguinha. Mas a ausência de espaços onde se possa discutir a própria sociedade, falando sobre problemas, soluções e suas próprias bases de sustentação, não pode ser encarada como algo natural. A sociedade atual vive e sobrevive de uma exaltação extrema a dimensão econômica da vida humana. Toda aquela história que já cansamos de ouvir do trabalho como elemento que dignifica o homem, ou o homem como recurso, um gerador de riquezas. No trabalho reside a única forma de sobrevivência nessa sociedade, portanto, com a manutenção dessa sobrevivência cada vez mais difícil de ser realizada, sob condições cada vez mais adversas, não é de se espantar que todas as instituições produtoras e reprodutoras de imaginários, foquem todo o seu esforço na lapidação de um homem estritamente econômico, onde os seus sonhos e objetivos sejam de sucesso e de glória econômica. Sendo assim, as outras dimensões da existência humana em sociedade, ficam secundarizadas (dentre elas a política) diante da urgência da conquista da sobrevivência. A graça toda é que para o funcionamento da própria sociedade, a dimensão política é importantíssima, mas para a população ela tem que ser banalizada.

Não é interessante a construção de espaços que dêem a população uma visão mais ampla sobre o termo política (que sistematicamente é confundido com eleição, definitivamente não são sinônimos), seria um desvio tolo, desnecessário para o caminho do sucesso que desde cedo somos estimulados a seguir. Sintetizando: Não cabe a construção de espaços que questionem ou alimentem a desconfiança sobre o funcionamento da própria sociedade em questão, portanto, a ausência da dimensão política de nossas vidas não é natural. Só que paradoxalmente precisamos dessa dimensão para mudarmos as coisas, insistir na construção desses espaços é fundamental e ao mesmo tempo uma transgressão da própria lógica de funcionamento da sociedade. Hoje a política resume-se em um dia a cada dois anos, nada mais do que isso. Um fardo que esses cretinos nos obrigam a carregar. Nós odiamos a política, pois a atrelam as eleições, a corrupção, a partidos políticos questionáveis e a uma burocracia infindável. E por odiar tanto, esquecemos da dimensão essencial e singela da política, que é o debate constante e o aprendizado.

Só que esse tempo que precisamos para pensar e refletir, a sociedade não nos oferece de bom grado. A descrição a seguir é a da rotina de milhões de brasileiros, a imersão na rotina quase sempre não dá brechas. O cara chega cansado em casa, trabalhou por 8 horas, às vezes 9 ou 10 para conseguir um trocado a mais. Ganha pouco mais de 600 reais, é muito difícil manter o sustento da família, como pode ainda ter que se preocupar com política? E todo esse pensamento é justíssimo. Só que ele não quer passar por desenformado, aí liga a TV, coloca no jornal e assiste um resumo das principais notícias do Brasil. Com cortes rápidos ele observa cenas de confusão, protestos, revoltas. O âncora do jornal (sempre sério e de índole inquestionável) repete as palavras vândalos, vagabundos e outras mais como se fosse um mantra. Se passou no jornal é um fato, ele é obrigado a concordar com o apresentador. Esse é o quadro e há muito tempo é assim, a mídia segue sendo o principal (e às vezes o único) interlocutor para a população, e mudanças não estão programadas. Esse é o grande desafio. Fazem falta espaços onde se possa contextualizar o que acontece, onde se possa fazer um debate sério sobre os problemas da população, onde as conclusões não sejam mandadas de cima para baixo, onde possam ser construídas em conjunto. Não temos isso amplamente e não estamos próximos de ter. Mas se já possuímos a consciência de que um trabalho pedagógico de construção de um novo olhar sobre esse mundo é vital, então não estamos perdendo de zero.

Marcio Ornelas